The Earthly Paradise no Pano de Fundo de Anseios Contemporâneos

Die Erinnerung ist das einzige Paradies,
aus dem wir nicht vertrieben werden können.

A memória é o único paraíso,
do qual não podemos ser expulsos.

Jean Paul

No seu tratado Über naive und sentimentalische Dichtung (Sobre a poesia ingénua e sentimental, 1795/96) Friedrich Schiller indica que os vários conceitos de um paraíso fazem parte do imaginário colectivo de todos os povos:

All peoples, who have a history, have a paradise, a state of innocence, a golden age; yes, every individual man has his paradise, his golden age, which he remembers with more or less enthusiasm, according as he has more or less of the poetic in his nature. The experience itself, therefore, offers sufficient traits to the picture of which the pastoral idyll treats. For this reason, however, the latter remains always a beautiful, an elevating fiction, and the poetic power has really worked in the representation of the same in behalf of the ideal For to the man, who has once diverged from the simplicity of nature and has been delivered over to the dangerous guidance of his reason, it is of infinite importance, to contemplate once again the legislation of nature in a pure exemplar, to be able to be purified once again of the depravities of art in this faithful mirror. But there is a circumstance thereby, which very much reduces the aesthetic value of such compositions. Planted before the beginning of culture, they immediately exclude with prejudice all advantages of the same and according to their nature, find themselves in a necessary struggle with the same. They therefore lead us backward theoretically, whilst they lead us practically forward and ennoble us. Unfortunately, they place the goal behind us, toward which they should however lead us, and therefore can inspire us with the sad feeling of a loss, not with the joyous feeling of hope. Because they achieve their end only through annulment of all art and only through simplification of human nature, so do they have the highest merit for the heart, but all too little for the mind, and their uniform circle is brought to an end too quickly. Hence, we can only love them and seek them, when we are in need of calm, not when our powers strive after movement and activity.

(1)

Este topos, ou melhor, esse u-topos já é mencionado na epopeia de Gilgamesh (ca. 2000 a. C.), precisamente na descrição de Dilmun, uma terra de acesso difícil com um clima ameno e águas puras, onde não existem mortalidade, doença, velhice ou lamentação. Relatos semelhantes aparecem com grande variação nos mitos e nas literaturas das diferentes culturas mundiais (2). Designações como: ‘Paraíso’, ‘Éden’, ‘Elísio’, ‘Milénio’, ‘Walhalla’, ‘Happy Hunting Grounds’, ‘Idade de Ouro’, ‘Arcádia’, ‘Atlântida’, ‘Utopia’, ‘Fiddler’s Green’ ou ‘Schlaraffenland’ (País de Cucanha / Cocanha) são testemunhas da sua diversidade.

Frequentemente, os paraísos estão localizados fora do nosso tempo (3), ou seja no passado, no futuro e depois da morte do indivíduo. Em outros casos trata-se de uma deslocação geográfica: uma ilha, um jardim, uma montanha, um vale, por baixo da terra ou do mar, reinos utópicos na lua ou num outro planeta. Os paraísos são situados algures e em lado nenhum; o seu tratamento literário ocupa espaço tanto em paródias e caricaturas como em tratados teológicos, filosóficos e geográficos, romances, peças de teatro e dedicações poéticas em Almanaques de Senhoras (4).

Não parece estranho que os vários conceitos surjam no imaginário colectivo porque nascem da conditio humana comum. As noções da própria imperfeição e da aparente imperfeição do mundo(5) juntam-se ao sentimento do que faz falta para melhorar a vida e produz fantasias e projecções de situações ou mundos perfeitos, tanto para o indivíduo como para a sociedade. Os conceitos do paraíso (terrestre ou celestial) são condicionados pela realidade actual de quem os desenvolve e caracterizados por desejos de vida e juventude eterna, de paz e de comida, bebida e riqueza em abundância. A ausência de doença e de trabalho faz tanto parte destes conceitos, como as fantasias sexuais e de omnipotência.

As imagens criadas do paraíso e do Éden reflectem-se também na história da teoria e da arquitectura do jardim que “é um dos atributos do feminino”(6). Até à época do Barroco os autores de livros sobre jardins consideraram Deus como o primeiro e Adão como o segundo jardineiro(7) . Ainda em 1713 no jornal The Guardian, nº 173, Alexander Pope elogia os jardins de Alcínoo, descritos por Homero na Odisseia. A forma literária que o desejo de viver numa Idade de Ouro, ou seja numa Arcádia, tomou nas sociedades ocidentais foi determinada pela descrição bíblica do “paraiso de delicias” (8) (Gen. I-III) mas também por Hesíodo em Os trabalhos e os Dias (9) (ca. 700 antes de Cr.) por Virgílio nas Bucólica (41 – 37 antes de Cr) e por Ovídio (43 a.C. – 18 a.D.) nas Metamorfoses:

“Foi a primeira Idade a Idade d’Ouro.
Sem nenhum vingador, sem lei nenhuma
Culto à fé, e à justiça então se dava.
Ignoravão-se então castigo e medo.
Ameaças terriveis não se Lião
No bronze abertas; súpplice catérva
À face do Juiz não palpitava:
Todos vivião sem Juiz, sem damno.
Inda nos pátrios montes decepado
Às omdas não baixava o pinho ingente,
Para depois ir ver hum mundo estranho;
De mais clima, que o seu, ninguém sabia.
Inda altos fossos não cingião muros:
As tubas, os clarins não resoavão;
Nem armas, nem exércitos havia:
Sem elles, os mortaes de paz segura
Em ócios innocentes se gosavão.
O ferro sulcador não a rompia,
E dava tudo a voluntaria Terra.
Contente, do que brota sem cultura,
Colhia a gente o montanhez morango,
Crespos medronhos, e as cerejas bravas,
A amora occulta na espinhosa silva,
E as ponteagudas, luzidías glandes,
Que a arvore de Júpiter cahião.
Erão todas as quadras Primavera.
Mansos Favónios com subtil bafêjo,
Com tépidos suspiros amimavão
As flores, sem cultura então nascidas.
Vião-se enlourecer, curvar-se as mésses
Nos campos virgens d’aratórias lidas;
Em rios ir correndo o leite, o néctar;
E da verde azinheira estar cahindo
O flavo mel em pegajósas gotas.”

(Ovidio, As Metamorphóses, trad. de A.F. de Castilho, 1841: I, 16-17)

No seu ensaio “Os ‘Founding Fathers’ e a Memória dos Clássicos – o Passado no Presente”, Avelar afirma que “através das lentes dos clássicos, do mito da idade original, do Ouro, paradisíaca, […] a idade moderna começa a observar o Novo Mundo”. (Avelar, 2005: 274). As fontes para o Éden descrito na Génesis, que tem servido como exemplo literário para muitos jardins paradisíacos, incluem mitos de criação da Suméria, Babilónia e Assíria.

Todavia na Idade Média a interpretação do mundo pela igreja católica não admitiu utopias de paraísos terrestres, uma vez que no pensamento escatológico a possibilidade de obter acesso ao paraíso celestial só existe após a morte. Os adeptos do Chiliasmo, que acreditavam numa realização do paraíso terrestre, foram combatidos, até o espírito da Renascença secularizava o conceito celestial: a utopia da Renascença é o céu secularizado da idade média - “Die Utopie der Renaissance ist der säkularisierte Himmel des Mittelalters”. (Horkheimer: 87).

A discussão realística e lógica da vida no paraíso perdido nas obras de Tomás de Aquino renovou a importância teológica deste conceito preparando o discurso humanista na Renascença, enquanto Dante salientou a perfeição espiritual no estado da inocência. Petrarca, Boccaccio e Chaucer (“The Former Age”, 1380-1400) retomaram estas ideias e as formas das literaturas clássicas; Sannazaro (Arcadia, 1502), Tasso (Aminta, 1573), Philip Sidney (Arcadia, 1590) e Shakespeare (As You Like It, 1603) escreveram romances e peças pastoris que marcaram este género durante séculos.

Também Edmund Spenser, no livros II e VI (10) de Faerie Queene (1589) desenvolve a sua fantasia do “Bower of Bliss” seguindo o topos estabelecido:

A place pick’d out by choice of best alive,
That nature’s work by art can imitate:
In which whatever in this worldly state
Is sweet and pleasing unto living sense,
Or that may daintest fantasy aggrate,
Was poured forth with plentiful dispense,
And made there to abound with lavish affluence.

Goodly it was enclosed round about, …”

(Spenser, 1859: II, 110)

As visões do paraíso e do inferno que Dante (Divina Comédia, escrita entre 1306-1321) e Milton (Paradise Lost, 1665) nos ofereceram, têm influenciado o imaginário colectivo de um modo insubestimável. A descrição no quarto livro de Paradise Lost perpetua as ideias do difícil acesso (11) , da eterna primavera (“eternal spring”) e da abundância pastoril (“happy rural seat”, “rich trees”, “Flowers of all hue, and without thorn the rose”):

A heaven on earth! for blissful Paradise
Of God the garden was, by him in th’ east
Of Eden planted …

(Milton, 1841: 111)

Mesmo antes do século XV circularam histórias na tradição oral de várias regiões europeias sobre uma terra legendária de abundância, que nos países de expressão alemã obteve o nome de ‘Schlaraffenland’ (País de Cucanha). A grande popularidade deste conceito nos séculos XV, XVI e XVII mostrou-se em muitas versões (12) impressas dessa época influenciada pela Renascença Italiana e pela Reforma Protestante, na qual os abusos nas instituições da igreja, do estado e da sociedade foram alvo de duras criticas. Em várias versões poéticas, dramáticas e prosaicas, a utopia da ‘Schlaraffenland’, apresenta-se com elementos satíricos quase como paródia. Os habitantes desta terra imaginária recrutavam-se nas classes baixas e foram escolhidos por mérito contrariando assim o privilégio de nascimento e invertendo o sistema hierárquico feudal. Uma vez que os critérios para a admissão eram a preguiça, a gula, a luxúria e o desperdício, estes pecados mortais tornaram-se passaportes para a felicidade. Quem pretendia tornar-se cavaleiro neste ‘País de Cucanha’ tinha de combater outros com salsichas. O mais rude, desrespeitoso e irresponsável ficava príncipe e o mais preguiçoso rei. Excessos de comida e bebida eram o mais importante nesta terra de difícil acesso que começa a “três milhas por trás do Natal” (13) , onde o vinho sai das fontes e onde os comeres sempre prontos pedem a serem consumidos. Para os camponeses oprimidos, esfomeados e estafados, estas fantasias de delícias oferecidas na ‘Schlaraffenland’, significam uma contrapartida terrestre dos prazeres celestiais e pós-mortais prometidos pela igreja. Ou como escreve Elfriede Ackermann:

The difference between Schlaraffenland and the other forms of Paradise is merely a matter of refinement: the terms are different, but not contradictory. Paradise may be more noble than Schlaraffenland, and more spiritual, but it is also based on the desire of human kind for peace and happiness; ...

(Ackermann: 9)

Também em países como a França e a Inglaterra a tradição oral, folclórica e literária do Cockagne ou ‘the land of plenty’ continua. O inicio do poema “An Invitation to Lubberland”, publicado por volta de 1685, afirma esta fantasia quase universal:

Ther’s all sorts of fowl and fish
with wine and store of brandy,
ye have there what your hearts can wish
the hills are sugar candy

(14)

Até hoje a ideia do paraíso terrestre é perpetuada em canções e em quadros, como por exemplo, de Hieronymus Bosch (ca. 1450 - 1516): O Jardim das Delícias, Pieter Breughel ‘Le Vieux’ (ca. 1530-1569): Le pays de Cocagne, de Nicolas Poussin (1594-1665): Le paradis terrestre e Et in Arcadia Ego ou os ‘Ideallandschaften’ de Salomon Gessner (1730-1788).

Enquanto o tríptico de Bosch (15) aparentemente condena a indulgência humana em prazeres carnais, o quadro humorístico e satírico de Breughel ironiza os representantes das três classes principais do século XVI: o padre, o camponês e o soldado, que se entregam demais ao lazer e à boa comida e bebida. Os quadros idílicos de Poussin apresentam paisagens pastoris – uma Arcádia arcaizada, mas ao mesmo tempo não faltam visões de ‘memento mori’ que retratam e criticam a efemeridade e a vaidade da vida como, por exemplo, a Alegoria das Vaidades da Vida Humana de Harmen Steenwyck (1612 – 1656).

Os Idílios de Gessner, tanto na pintura como na literatura, reflictam as fantasias escapistas da nobresa e da alta burguesia europeias do século XVIII. Os seus poemas tiveram um grande sucesso não só nos países de expressão alemã, mas igualmente em França, Inglaterra e em Portugal.(16)

As utopias expressamente políticas, cujas novas teorias da sociedade se baseiam na análise crítica da sua época, renasceram também no tempo do humanismo. Em 1516 Thomas More publica De optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia, e no princípio do século XVII aparecem Città del Sole (1602) de Tommas Campanella, Histoire du grand et admirable royaume d’Antagil (anon., 1616) e New Atlantis (1621) de Francis Bacon. As estruturas narrativas da maioria destas utopias literárias mostram algumas constantes e mantêm-se durante séculos: a viagem, o naufrágio, a ilha desconhecida, o diálogo entre o visitante e o habitante e o regresso do náufrago.

Já o Elísio de Heródoto é uma ilha, tal como a Atlântida de Platão (mencionada em Timaios e Kritias) e também na Odisseia, o herói descobre ilhas aparentemente paradisíacas, mas por vezes encantadas e perigosas para o corpo e o espírito: aparentemente contra a sua vontade fica Ulisses na ilha Ogígia (17) durante sete anos na companhia da “ardilosa Calipso de belas tranças”. Depois a ilha de Eia é o cenário para o episódio com a encantadora Circe, também “de belas tranças” e especialista em “funestas drogas”.

Nas Historias Verdadeiras de Luciano (nasc. 125 na Síria) o viajante imaginário chega a uma ilha de queijo, dedicada a Galateia (grego: gala = leite) que flutua num mar de leite e cujas vinhas produzem uvas com leite. Numa outra, muito semelhante ao Elísio, o viajante encontra bons cheiros, sons suaves e musicais, ar e água pura. Nunca há noite escura ou dia completamente claro, só existe uma estação do ano: a primavera eterna. As vinhas dão doze colheitas por ano e as árvores de frutos treze. Os pães crescem logo na espiga, existem fontes de riso e desejo e rios de mel e vinho entre outras. Os habitantes sempre bem dispostos não envelhecem e recitam de preferência Homero.

Imagem do Camoes Lusiads

Hoje em dia, hiper- e supermercados tentam reproduzir este ambiente e esta abundância, tal como a indústria do cinema, televisão e a publicidade. Para imaginar paraísos desconhecidos o nosso planeta explorado e cartografado desde Capitão Cook, parece cada vez mais pequeno e por isso as utopias do século XX situam-se preferencialmente na lua ou algures no espaço. Todavia, para quem defendia a verdade à letra do texto bíblico sobre a criação do mundo era importante provar a existência de Éden. Os debates (18) sobre a localização do paraíso terrestre continuaram até ao século XVII. Será que o dilúvio não o destruiu e que o paraíso ficava na Etiópia, no Monte Amara? Os relatos dos exploradores portugueses e espanhóis sobre esse local inspiraram os conceitos poéticos de Milton (cujo Éden se situa na Mesopotâmia) e Coleridge (Kubla Khan, 1816). Havia também teorias que apontavam a sua localização para a Arménia, a Terra Santa, a Síria e a Índia. Actualmente as publicações de David Rohl e Klaus Schmidt (19) tentam explicar os mitos do paraíso ou da Idade de Ouro com a mudança das condições de vida na Idade de Pedra há 11000 anos. Segundo estes autores, um povo de caçadores numa região no norte do Irão tinha de adoptar por falta de recursos os duros hábitos de camponeses (fim da Idade de Ouro).

Enquanto Colombo ainda acreditava na existência de um paraíso terrestre localizável(20), cujo acesso só Deus poderia admitir, os descobridores descritos por Camões encontram a ‘Ilha dos Amores’ com a ajuda de Vénus. De facto, a narrativa dos Lusíadas (1572) propõe duas versões complementares da viagem de Vasco da Gama: uma instrutiva cristã e uma mítica pagã para entreter o leitor. A descrição da ilha no canto IX segue largamente as convenções das literaturas latina e italiana (Claudiano, Ovidio, Horácio), mas ao contrário das ilhas encantadas e enganadoras de Boiardo, Ariosto e Tasso, esta oferece prazeres reais para compensar os esforços dos navegadores. Para enquadrar o delírio pagão no universo cristão, Camões faz a ninfa Thetys declarar que todos elementos pagãos são parte de um simulacro com um sentido alegórico :(21)

Aqui, só verdadeiros gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter e Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; …

Gravura de Camões, Lusíadas, Lisboa, 1805,
Tomo II, Canto IX: A Ilha Dos Amores

Se a experiência da vida marítima de Camões influenciou a inovadora descrição da sua ‘Ilha dos Amores’, a ilha desabitada de Grimmelshausen (Simplicius Simplicissimus, 1668) segue o topos clássico: os náufragos Simplicius e o seu companheiro português, o carpinteiro Simon Meron de Lisboa, vivem em abundância como as pessoas da primeira Idade de Ouro (“…wie die Leut in der ersten güldenen Zeit lebeten” (Grimmelshausen: 581). Fiel à tradição homérica aparecem tentações (do diabo) em forma de uma mulher e um fantasma do falecido português neste lugar fértil, pacifico e abençoado(22). Mas brevemente já não existem outros inimigos além dos pensamentos próprios do protagonista (Grimmelshausen: 585) que recusa o convite para regressar a uma Europa decadente, e devastada pela Guerra dos Trinta Anos.

Poucos anos depois a ilha selvagem que só o engenho do protagonista em Robinson Crusoe (Daniel Defoe, 1719) torna habitável, criou uma verdadeira moda literária. Destas ‘Robinsonadas’, a mais famosa na língua alemã é Insel Felsenburg (23) (1731/43) de Johann Gottfried Schnabel, na qual os náufragos formam uma sociedade exemplar em harmonia com a natureza sem guerras de religião, sem pobreza nem diferenças sociais. No seu ‘suplemento a história de Robinson Crusoe’: Crusonia, or Robinson Crusoe’s Island, Down to the present time (1782) Thomas Spence descreve a vida dos habitantes depois da partida do protagonista, demonstrando que a felicidade depende do bom senso, do trabalho e da capacidade organizadora do homem:

Instead of Anarchy, Idleness, Poverty and Meanness, the natural consequences, as I narrowly thought, of a ridiculous levelling scheme, nothing but Order, Industry, Wealth and most pleasing Magnificence!”

(Tod/Wheeler: 71)

Contra a corrente das numerosas utopias sobre sociedades perfeitas (24) que seguem os ideais do Humanismo e a razão das Luzes, os relatos de Taiti divulgados após as viagens de Bougainville (1766-1769) e Cook (1768-1771 e 1772-1775) revitalizaram o mito de um paraíso natural de amor terrestre. Na sua descrição de ‘Nouvelle-Cythère’ - nome que o navegador francês deu a Taiti – Bougainville evoca a antiga imagem da Arcádia bucólica, da idade de ouro e do Elísio: “Je me croyais transporté dans le jardin d’Eden” / “on croit être dans les Champs-Elysées” / “partout nous voyions régner l’hospitalité, le repôs, une joie douce et toutes les apparences du bonheur” (25) . Comparando as mulheres da ilha com ninfas e os homens com “Hercule et Mars”, Bougainville afirma e reforça o conceito do ‘nobre selvagem’, que tinha sido propagado por Rousseau. O resultado foi uma moda Taitiana no final do século XVIII não só na cultura francesa, mas também nas artes e literaturas inglesas e alemãs. Autores como Delille, Diderot e até de Sade (26) escreveram poemas e utopias relacionadas com a flora e fauna paradisíaca de Taiti e sobre o amor livre, enquanto Chateaubriand tentou encontrar paralelismos com o Cristianismo nos ritos dos aborígenes (Le Génie du Christianisme (1802). Na sua narrativa do motim no Bounty o Capitão Bligh alega que teriam sido precisamente estas características aliciantes as razões para a resistência voltar a Inglaterra (28/04/1789):

The women at Otaheite are handsome, mild and cheerful in their manners and conversation, possessed of great sensibility, and have sufficient delicacy to make them admired and beloved. The chiefs were so much attached to our people, that they rather encouraged their stay among them than otherwise, and even made them promises of large possessions. Under these, and many other circumstances, equally desirable, it is now perhaps not so much to be wondered at, though scarcely possible to have been foreseen, that a set of sailors, most of them void of connexions, should be led away; especially when, in addition to such powerful inducements, they imagined it in their power to fix themselves in the midst of plenty, on one of the finest islands in the world, where they need not labor, and where the allurements of dissipation are beyond anything that can be conceived.

(Bligh: 176)

A fama de Taiti (27) obrigou Bligh ordenar um exame médico a todos os membros da tripulação para verificar se alguém tinha uma doença venérea, uma vez que “it could not be expected that the intercourse of my people with the natives should be of a very reserved nature” (Bligh: 62).

Quando os escritores Herman Melville (em 1841) e Robert Louis Stevenson (em 1888) chegaram à ilha, o colonialismo já tinha alterado o cenário que o pintor Paul Gauguin tentava reconstruir através dos seus quadros primitivistas no final do século XIX (28).

Numa carta a Sidney Colvin (Samoa, 28/09/1891), Stevenson menciona o conto The Beach of Falesá que acabou de escrever, sublinhando a sua perspectiva realística (29):

There is a vast deal of fact in the story, and some pretty good comedy. It is the first realistic South Sea story; I mean with real South Sea character and details of life. Everybody else who has tried, that I have seen, got carried away by the romance, and ended in a kind of sugar-candy sham epic, and the whole effect was lost – there was no etching, no human grin, consequently no conviction.

(Stevenson, 1895: I, 159)

Com esta abordagem estética o escritor escocês, que interveio activamente na política local de Samoa, provavelmente teria tido algumas reservas em aprovar as impressões dos quadros de Gauguin, pintados quase ao mesmo tempo.

Voltando as costas a uma civilização europeia que considerava decadente, a imaginação de Gauguin ainda estava influenciada pelo mito literário transmitido no romance de Pierre Loti Le mariage de Loti (1880 / título orig.: Rarahu) e outras descrições pitorescas de Taiti. Durante a sua primeira estadia em 1891 grande parte da ilha já era europeizada: casas feias em vez de cabanas românticas, mulheres com vestidos compridos, ladrões e sífilis. Mas nos seus quadros idílicos Gauguin pintou a simplicidade e a naturalidade que procurava, ignorando ou evitando as consequências negativas do colonialismo. Na retrospectiva, e recorrendo a exemplos da literatura de ficção científica (H.G. Wells), reconhece a dificuldade “de trouver un coin tranquille à l’abri des méchants. Pas même l’île du docteur Moreau : pas même la planète de Mars” (Gauguin : 64). Os seus colegas Monet e Renoir não gostavam do seu estilo cada vez menos impressionista e Pissarro culpabilizou-o de pilhar os selvagens da Oceânia (30).

Em Inglaterra os Pré-Raphaelitas, nomeadamente Edward Burne-Jones e William Morris (1834-1896), procuraram captar o paraíso terrestre, recriando cenários mediaveis tanto na pintura como na poesia. É notável a influência de Chaucer no sonhador romântico Morris (31) , de quem Friedrich Engels esperava a liderança na prevista revolução socialista britânica, embora o achasse muito sentimental e pouco prático. Com News from Nowhere (de 1890), Morris publicou uma utopia rural e ideal da sociedade socialista no século XXI, mas já nos anos sessenta tinha escrito o seu poema épico The Earthly Paradise. Nesta visão literária verdadeiramente Europeia e multi-cultural, o autor conta a história de representantes de vários países (“Wanderers”) que fugiram da praga na Europa quinhentista à procura da legendária terra da vida eterna. Depois de um naufrágio no Mar Adriático são recebidos por descendentes dos Gregos antigos numa ilha remota. Durante um ano os dois grupos reuniam-se mensalmente para contar lendas da época clássica e histórias medievais da Grécia, Inglaterra, Alemanha, Escandinávia e Pérsia, possibilitando assim a apreciação mútua de descrições de paisagens, sociedades, culturas e classes sociais diferentes. Os vinte e quatro poemas narrativos de The Earthly Paradise ficam interligados como no seu modelo: The Canterbury Tales (escrito entre 1387-1400) de Chaucer. “The Lady of the Land”, que faz parte das “June tales” é uma versão alargada da história no quarto capítulo do livro The Voyage of Sir John Maundeville (1322-1356). O prólogo deste paraíso de ‘story-telling’, cuja temática é a mortalidade (32), a tensão entre as ilusões que a arte consegue fornecer e a realidade dura do século de industrialização, chama-se “Apology”. Embora que E.P. Thompson admita ainda um “flickering spirit of revolt” neste poema que recusa o positivismo, caracteriza-o como “poetry of despair” (33):

Of Heaven or Hell I have no power to sing,
I cannot ease the burden of your fears,
Or make quick-coming death a little thing,
Or bring again the pleasure of past years,
Nor for my words shall ye forget your tears,
Or hope again for aught that I can say,
The idle singer of an empty day.” […]

Florence Saunders interpreta a “Apology” como meditação elegíaca sobre a vanitas (“emptiness”), relembrando a observação famosa de Walter Pater que The Earthly Paradise expressasse um “… sense of beauty heightened by a knowledge of death” (Westminster Review, October, 1868, 90: 309).

The “singer” truly would allay our fears, and tell us where the past years are – but, of course, he cannot. […] The disclaimer in the first line - “Of Heaven or Hell I have no power to sing” – also localizes the poem’s search for an “earthly” paradise; firmly detaches Morris’ epic from the supernatural cosmology of Homer, Virgil, Spenser, and Milton (“Sing, heavenly Muse”) and aligns it with an alternate, secular tradition of narrative and romance

(Saunders: 28-29)

A estrofe seguinte evidencia o escapismo implícito na “Apology”, sendo o portal de marfim (“ivory gate”) um dos dois portais tradicionais do sono, pelo qual os sonhos enganadores passam (Cf. Odisseia, XIX, 562-67 e Eneida, IV, 893-94):

Dreamer of dreams, born out of my due time,
Why should I strive to set the crooked straight?
Let it suffice me that my murmuring rhyme
Beats with light wing against the ivory gate,
Telling a tale not too importunate
To those who in the sleepy region stay,
Lulled by the singer of an empty day

Os últimos versos do poema intensificam e justificam a necessidade de construir uma ilha paradisíaca (“a shadowy isle of bliss”), ou seja, um retiro poético para aqueles leitores da época industrial que o entendem correctamente, embora sem oferecendo grandes soluções (34) . Estas devem ser propostas pelos homens poderosos (“mighty men”) e não pelo poeta:

So with this Earthly Paradise it is,
If ye will read aright, and pardon me,
Who strive to build a shadowy isle of bliss
Midmost the beating of the steely sea,
Where tossed about all hearts of men must be;
Whose ravening monsters mighty men shall slay,
Not the poor singer of an empty day

De facto, quase todos os conceitos do Éden ou da Idade de Ouro até ao final do Romantismo são visões retrospectivas de paraísos perdidos. Esta abordagem torna-se também notável no primitivismo de Gauguin e no medieavalismo de Burne-Jones. Até no romance News from Nowhere, cuja acção não faz lembrar ficção científica embora situada no século XXI, prevalece um carácter pastoril. Característica inesperada de um esboço socialista escrito em plena época da industrialização descrevendo uma sociedade perfeita no futuro.

A posição positivista no século XIX, com a sua crença na perfectibilidade do homem, no progresso científico e cultural ilimitado possibilita e facilita o sucesso de um género literário cujo autor de referência é Jules Verne. Novas descobertas nos campos da arqueologia (pré-histórica) e da biologia (Darwin) preparam o fundamento para duvidar da existência de paraísos terrestres perdidos no passado.

Resumindo os conhecimentos das ciências da sua época no seu livro Das goldene Zeitalter oder Das Leben vor der Geschichte (A Idade de Ouro ou a vida antes da história, 1891) Ludwig Büchner alega que a situação dos nossos antepassados não era de maneira nenhuma paradisíaca, mas deplorável (Büchner, 1891: 3-4). Citando Horácio (1º livro das Sátiras), Lucrécio e Diodoro, que retratam os primeiros homens como pobres selvagens, desvaloriza os mitos do paraíso perdido dos outros autores clássicos. Segundo Büchner só através do contínuo desenvolvimento cultural e científico poderia o homem alcançar um paraíso dependendo da vontade para a sua própria perfeição (“Vollkommenheit”) e de uma maior dominância sobre a natureza (“eine noch größere Beherrschung der Natur”). Contudo, o que serviu como lema e folha de figueira do Positivismo são as palavras do Deus cristão na Génesis I (ca. 600 antes de Cr.): (35)

Façamos o homem à nossa imagem, e similhança, o qual presida aos peixes do mar, ás aves do Ceo, ás bestas, e a todos os reptís, que se movem sobre a terra, e domine em toda a terra. [...] Crescei, e multiplicae-vos, e enchei a terra, e sujeitae-a, e dominae sobre os peixes do mar, e sobre as aves do Ceo, e sobre todos os animaes, que se movem sobre a terra.

(Genesis I, 26 / 28)

Na sua Dialektik der Aufklärung (1944) Horkheimer e Adorno demonstraram as consequências inevitáveis desta linha de pensamento. Segundo os autores os homens sempre tiveram a escolha entre a sua subjugação à natureza ou a subjugação da natureza pelo Eu (alternativa essencial do Iluminismo):

The essence of enlightenment is the alternative whose ineradicability is that of dominion. Men have always had to choose between their subjection to nature or the subjection of nature to the Self. With the extension of the bourgeois commodity economy, the dark horizon of myth is illuminated by the sun of calculating reason, beneath whose cold rays the seed of the new barbarism grows to fruition. Under the pressure of domination human labor has always led away from myth – but under domination always returns to the jurisdiction of myth.

(Adorno/Horkheimer: 32)

Enquanto o animismo atribuía almas às coisas, o industrialismo ‘coisificava’ (“versachlicht”) as almas. A adaptação ao poder do progresso implica o progresso do poder. Mas a maldição deste imparável progresso é a imparável regressão no sentido de alienação, de separação do homem da natureza:

The creative god and the systematic spirit are alike as rulers of nature. Man’s likeness to God consists in sovereignty over existence, in the countenance of lord and master, and in command. Myth turns into enlightenment, and nature into mere objectivity. Men pay for the increase of their power with alienation from that over which they exercise their power. Enlightenment behaves toward things as a dictator toward men. He knows them in so far as he can manipulate them.

(Adorno/Horkheimer: 9)

As consequências desta instrumentalização do pensamento iluminista são notáveis. Algumas delas foram evidenciadas na montagem fílmica (publicidade, material documentário, tema musical) que complementou a conferência:

  1. Poluição e destruição de paisagens paradisíacas que as indústrias de automóveis e de turismo utilizam como pano de fundo para os seus produtos.
  2. Devastação do atol de Muroroa perto de Taiti pelas experiências nucleares que o governo Francês ordenou nos anos sessenta

Segundo a canção critica dos Eagles “The Last Resort” (Hotel California, 1976) - o acompanhamento musical da montagem - basta chamar a um sítio paraíso para o destruir: “You call some place paradise, kiss it good-bye”. Fica aparente a impossibilidade de paraísos terrestres para mentes insaciáveis como Fausto, que promete render-se ao diabo quando tenta captar e prolongar a felicidade momentânea: “Se me chegar momento a que eu diga: «Demora-te! És formoso» então aos teus grilhões entrego os pulsos; então a morte aceito;” (Castilho, 1872: 119) (36)

Resta lembrar uma das primeiras tentativas esteticamente conseguidas de reconstruir estes locais enigmáticos dos nossos sonhos em celulóide: Tabu, a produção que Friedrich Wilhem Murnau iniciou no Taiti em colaboração com Robert Flaherty (Nanook of the North, 1920, White Shadows of the South Seas, 1928) não pode de modo nenhum ficar um mero documentário. Depois do abandono deste último devido a divergências estéticas (realismo/romantização) o filme absorveu, nas palavras de Lotte Eisner, biógrafa de Murnau, a dolorosa nostalgia que sempre acompanha la recherche du temps perdu:

...the paradise he conjured up in his film had already been destroyed long since. […] But Murnau tried to go back to nature. He found a dream landscape rising out of an emerald sea fringed with palms, with gentle flower-scented hills. He also found men who were as they had been before, and who when he stripped them off their ugly European clothes were as magnificent as on the first day of creation.

(Eisner: 202)

Na bagagem de Murnau encontravam-se livros sobre a vida na Polinésia de Melville, Stevenson, Conrad, Loti, Hal, Nordhoff e Frederick O’Brian (autor de White Shadows of the South Seas). A primeira paragem do seu iate foi na ilha de Nukuhiva (Marquesas) cuja praia Tai-o-Hai serviu como cenário para o livro Typee (1846) de Melville. A sua visita a campa de Paul Gauguin em Atuona foi um acto quase programático do realizador na busca de produzir um filme longe dos estúdios de Hollywood utilizando em vez de actores profissionais nativos, que pareciam “pictures by Gauguin come to life” (37).

O resultado do trabalho, o filme mudo Tabu, que só estreou em 1931, quando as produções sonoras já dominavam o mercado, inicialmente não obteve aprovação unânime. Flaherty achou que Murnau não só tinha romantizado mas também europeizado as tradições e hábitos dos Polinésios. Eisner critica sobretudo a opinião negativa de Richard Griffith, expressa na revista Film Culture, 20 (1958):

As for the ‘Europeanization’ in Tabu, it is not as simple as Richard Griffith thinks, with his allusions to the ‘Germanization’ of the plot, ‘Teutonic’ Priestesses, and the resemblance between Matahi and the ‘Dying Gaul’ (sic!). Murnau had set out for the islands dreaming of all the tales of the Pacific he had read. But neither Jack London, nor Stevenson, nor O’Brien, nor Melville, nor even Conrad, were German authors.

(Eisner: 217)

Todavia, esta vida paradisíaca reconstruída e captada em celulóide que foi inspirada por vários modelos literários e artísticos também encantou o realizador que iria falecer num acidente de automóvel pouco tempo antes da estreia de Tabu:

When I think I shall have to leave all this I already suffer all the agony of going. I am bewitched by this place. I have been here a year and I don’t want to be anywhere else. The thought of cities and all those people is repulsive to me.

(38)

Footnotes

1) No contexto da poesia pastoril/idílica Schiller lamenta a sua tendência de olhar para o passado (estado pré-cultural / não-histórico), e de inspirar um sentimento de perda, em vez de dar esperança para o futuro: “Alle Völker, die eine Geschichte haben, haben ein Paradies, einen Stand der Unschuld, ein goldnes Alter. […] Aber ein Umstand findet sich dabei, der den ästhetischen Werth solcher Dichtungen um sehr viel vermindert. Vor dem Anfang der Kultur gepflanzt, schließen sie mit den Nachtheilen zugleich alle Vortheile derselben aus und befinden sich ihrem Wesen nach in einem nothwendigen Streit mit derselben. Sie führen uns also theoretisch rückwärts, indem sie uns praktisch vorwärts führen und veredeln. Sie stellen unglücklicher Weise das Ziel hinter uns, indem sie uns doch entgegen führen sollten, und können uns daher bloß das traurige Gefühl des Verlustes, nicht das fröhliche der Hoffnung einflößen.” (Schiller, 1844: X, 334)
http://www.schillerinstitute.org/transl/Schiller_essays/naive_sentimental-2.html

2) O Alcorão fala de sete paraísos; no sétimo o crente encontra um jardim de delícias com frutos (55,68) e carne, com fontes de água, leite, mel e vinho (47,15) que não embebeda. Aos fiéis muçulmanos Alá promete ninfas como esposas: “Houris de olhos grandes” (44,54; 56,22). Neste paraíso ninguém está triste (35,34), e já não existem fadiga ou cansaço (35,35). Ver também: Ackermann, p. 30)

3)No seu estudo sobre a economia e a religião na Idade Média Jacques Le Goff chama a atenção para o entendimento daquela época em que o tempo pertence a Deus (e não ao usurário): “O dia e a noite são os duplos terrestres dos dois grandes bens escatológicos, a luz e a paz. Porque ao lado da noite infernal há uma noite terrena em que se pode pressentir o paraíso.” (Le Goff, 1987: 49)

4) Partindo de Homero e Virgílio o poema “Les Élysées” de V. Campenon, dedicado a “une jeune amie”, mostra às senhoras toda a diversidade dos vários conceitos, mencionando até o mundo Ossiânico, onde nenhum Deus existe: “Les enfans d’Ossian, les guerriers scandinaves, / Moins polis que les Grecs, plus fous, mais aussi braves, / Vont dans leur Elysée à de nouveaux combats.” (Almanach des Dames pour l’an 1808: 122)

5) Na sua Teodicea (1710), que é uma justificação da fé racionalista contra quem atribui a origem do mal ao Deus, Leibniz defende o “melhor dos mundos possíveis”, implicando que a perfeição não esteja realizada num nível individual mas só na totalidade do mundo.

6) Centeno, “A Arte de Jardinar”, p. 133: “O jardim do Éden é o espaço atemporal da criação. Corresponde ao famoso jardim das Hespérides, que era uma ilha de maçãs, ou à ilha celta de Avalon, outra ilha de pomares. Locais mágicos onde a vida se perpetua eternamente.”

7) Wimmer (1989) cita autores como Melchior Sebitz, Widmung (1577), in: Charles Estienne, XV. Bücher vom Feldbaw […], Strassburg 1598; Johann Peschel, Garten Ordnung […], Eisleben, 1597; Francis Bacon, “On Gardens”, in: Essayes or Counsels, ciuill and morall, London 1625 e John Parkinson, Paradisi in Sole Paradisus Terrestris, or A Garden of all Sorts of Pleasant Flowers […], London 1625: “Es sol vns auch der lust der Gärten / unser ersten erschaffung / und wozu Gott die Menschen erschaffen hat / erinnern. […] So hat er doch auch den Menschen / als bald nach der erschaffung / in das wolgezierte und Freudenreiche Paradeiß gesetzt / damit der Mensch alßbald erfahre / das jhn Gott zu lust vnd Freud erschaffen habe / denn der Mensch ist nicht zu diesem Elenden Jemmerlichen vnd Tödlichen Leben erschaffen / Sondern zu dem ewigen vnd Freudenreichen leben.” (Peschel, cit. de: Wimmer, 1989: 68) No século XX este antropocentrismo foi ocasionalmente abandonado. Valorizando sistemas ecológicos, mesmo sem seres humanos que os possam usufruir, o filme de ficção científica Silent Running (Trumbull, 1971), por exemplo, mostra estufas no espaço que são cuidados por robots.

8) A Biblia Sagrada contendo o velho e o novo testamento. Traduzido em Portuguez segundo a vulgata latina por Antonio Pereira de Figueiredo, Lisboa: Typographia Universal 1865, p. 3.

9) “De ouro é que foi formada a primeira raça de homens mortais pelos eternos habitantes de Olimpo. Existiam esses homens no tempo de Crono, quando ele reinava no céu. Viviam como deuses, livre o coração de cuidados, ao abrigo das fadigas e da miséria; não os ameaçava a lamentável velhice, mas, sem perder o vigor das pernas e dos braços, levavam alegre a vida nos festins, longe de todos os males; depois morriam, como domados pelo sono. Pertenciam-lhes todos os bens: a fértil gleba dava espontaneamente seus frutos com generosa abundância, e eles, satisfeitos com a sua sorte, pacíficos, viviam nos seus campos, em meio de super-abundância de bens. Depois que a terra cobriu os homens dessa raça, pela vontade do grande Zeus tornaram-se eles Génios benfazejos que habitam na terra, protectores dos mortais e distribuidores de riquezas: tal é o real privilégio que obtiveram.” (M. Bensabat Amzalak, Hesíodo e o seu Poema ‘Os Trabalhos e os Dias’, 1947, p. 44.)

10) “It was a hill plac’d in an open plain,
That round about was bordered with a wood
Of matchless height, that seem’d th’earth to disdain;
In which all trees of honour stately stood,
And did all winter as in summer bud, … (Spenser, 1859: IV, 133)

11) “a rural mound, the champaign head / Of a steep wilderness, whose hairy sides / With thicket overgrown, grotesque and wild, / Access denied” (Milton, 1841: 108)

12) Anexado à sua tese Das Schlaraffenland in German Literature and Folksong (1944) E.M. Ackermann lista vários textos em francês, alemão, neerlandês, inglês, italiano e espanhol, como por exemplo: Li pais à non coquaigne (ca. 1250), The English Poem of Cokaygne (ca. 1305), Das Wachtelmaere (ca. 1355), Das Sluraffenschiff (1494), Vant Luye Lecker Landt (1546), Il Trionfo della Cuccagna (1548), Der König von Schlauraffenlandt (1650), etc. (pp. 143-197).

13) Cf. o poema “Das Schlaweraffenlandt” de Hans Sachs (1494-1576): “Eine Gegend heißt Schlaraffenland, / den faulen Leuten wohlbekannt; / die liegt drei Meilen hinter Weihnachten. / Ein Mensch, der dahinein will trachten, / muß sich des großen Dings vermessen / und durch einen Berg von Hirsebrei essen; …”

14) Cf. “Song of Cockaygne” (balada popular): In Cockaygne we drink and eat / Freely without care and sweat, / The food is choice and clear the wine, / At fourses and at supper time, / I say again, and I dare swear, / No land is like it anywhere, / Under heaven no land like this / Of such joy and endless bliss. There is many a sweet sight, / All is day, there is no night, / There no quarrelling nor strife, / There no death, but endless life; / There no lack of food or cloth, / There no man or woman wroth …” (Tod/Wheeler: 10-11)

15) “With the exception of a few scholars, most have seen the triptych as an elaborate condemnation of the follies and sins of man totally given over to the delights of the flesh and the fate that awaits him in hell, where he must continue to indulge in these senseless activities forever while being prodded and tortured by frightening demons who attack him from every side, never letting him rest. All things are inverted in the end. The delights become tortures, the warmth of summer becomes the freezing cold of winter, the afternoon sunlight is replaced by the pitch black of midnight, the fertile Fountain of Life is transformed into the empty, dry Tree-Man, and the creative principle, Christ, is replaced by the destroyer, Satan, […] De Tolnay’s discussion of the central panel relies on psychoanalytic interpretation, “the collective dream of an earthly paradise,” and he suggests that Bosch actually turned to ancient theories on the reading of dreams, citing Macrobius on Cicero’s Somnium Scipionis and Virgil’s statements that the substance of dreams is either of ivory (deceptive dreams) or horn (true dreams). […] He concludes that Bosch comes closer than any artist of his time to anticipating modern interpretations of sexual dreams by psychoanalysis (Freud) and depth psychology (Jung).” (Snyder: 20-21) Para Jung o conceito do paraíso era um arquétipo.

16) Cf.: Salomon Gessner, A morte de Abel: poema épico em cinco cantos; trad. por Padre José Amaro da Silva. Porto: Off. que foi de António A. Ribeiro Guimarães, 1785; A morte de Abel: poema épico em cinco cantos; trad. por Padre José Amaro da Silva. Lisboa: Typ. Rollandiana, 1818; A morte d'Abel: poema em cinco cantos; versão por. de Carlos Eugénio João Felipe Ferreira. Bombaim: Nicols' Printing Works, 1886; O primeiro navegante: poema; trad. por D. M. A. F. L. S. L. M.. Lisboa: Typ. Rollandiana, 1819; O primeiro navegante: poema de Gessner em dous cantos; trad. A. Amalia V. Gomes. Porto: Imp. Alvares Ribeiro, 1835; Idyllios e poesias pastoris; trad. por Joaquim Franco de Araujo Freire Barbosa. Lisboa: Off. Simão Thaddeo Ferreira, 1784; Idyllios de Gessner; trad. por José Freire de Pina Ozorio. Lisboa: Imp. Regia, 1812; Bibliothecasinha da infancia / Gessner; trad. Antonio Monio Barreto Corte Real. Angra do Heroísmo: Typ. de M. J. P. Leal, 1855; Erasto: pastoral, de Mr. Gessner. Lisboa: Typ. Rollandiana, 1817; Evandro e Alcina : pastoral, de Mr. Gessner. Lisboa: Typ. Rollandiana, 1817.

17) Nesta “remota ilha […] habitava a ninfa de belas tranças. […] Ardia no lar uma grande fogueira e o aroma do cedro, fácil de rachar, e da tuia rescendia ao longe, pela ilha, enquanto ela, no interior, ao som da sua linda voz e meneando-se no tear, tecia com uma lançadeira de oiro. Em volta da gruta tinha crescido um bosque luxuriante de amieiros, álamos pretos e de ciprestes odoríferos, […] Ali, uma pujante cepa, a vergar sob o peso dos cachos, estendia os seus braços em redor da gruta côncava. De quatro fontes vizinhas umas das outras, manava água cristalina em direcções diversas; e, pela redondeza, em macios prados, floresciam a violeta e o aipo. Até um imortal, que aí fosse, se admiraria e sentiria prazer no seu coração, ao contemplar o espectáculo.” (Homero: 66-67)

18) O Huguenoto Rivetus atribuiu a ideia de um paraíso terrestre ainda existente a quatro autores católicos: Sixtus de Siena, Cardeal Bellarmino, Leonardus Lessius e Marius de Colonha: “The staunchest defender of na existing paradise, intact and habitable, was Roberto Francesco Bellarmino, noted for his controversies with Protestants on many questions. Cardinal Bellarmine could define clearly the “modern” view that a paradise in or near Mesopotâmia had been destroyed in the Flood and that the cherubim with fiery swords no longer guarded the Edenic garden. Bellarmine, however, rejected this view on the basis that it was a new opinion and contrary to that of the fathers and scholastic doctors. […] Milton, in emphasizing the destruction of paradise, reflected the solid Protestant opposition to the views of Bellarmine and other Catholic writers. At the same time he supported the literal, historical interpretation of the Scriptural account of Adam and Eve and of Noah.” (Duncan: 192)

19) David Rohl, Legend. The Genesis of Civilization, London: Random House 2006; Klaus Schmidt, Sie bauten die ersten Tempel. Das rätselhafte Heiligtum der Steinzeitjäger, München: Verlag C.H. Beck 2006.

20) Recordando a sua terceira viagem, Colombo descreve o hemisfério ocidental como “the half of a very round pear, having a raised projection for the stalk ... or like a woman’s nipple on a round ball.”[…] “I believe it is impossible to ascend thither, because I am convinced it is the point of the earthly paradise, whither no one can go but by God’s permission.” (Select Letters of Christopher Columbus, (trad. R.H. Major), London 1870, pp. 136 / 141) Em Agosto de 1498 Colombo estava convencido que o recentemente descoberto Orinoco, era um dos quatro rios do paraíso.

21) Na sua introdução dos Lusíadas Pierce observa: “Camões appears to have broken or to have complicated his poetic reality with the Isle of Love and the subsequent explaining of it all away. […] The Isle of Love itself becomes a powerful and original version of a most popular theme from ancient and contemporary poetry, that is, the locus amoenus, the bower of love, the abode of bliss, …” (Camões: xxxi)

22) “… mehr als glückseligen Insel” (Grimmelshausen, 575) “Die ersten Menschen in der güldenen Zeit, da der gütige Himmel denselbigen ohne einzige Arbeit alles Gute aus der Erden hervorwachsen lassen […] es war jederzeit Wetter wie es bei den Europäern im Mai und Junio zu sein pflegt. ” (Grimmelshausen, 582)

23) J.G. Schnabel (1692-depois de 1750), Wunderliche Fata einiger See-Fahrer, absonderlich Alberti Julii, eines geborenen Sachsens, auf der Insel Felsenburg. No século XIX foi editada uma nova edição ‘melhorada’ por Ludwig Tieck: Die Insel Felsenburg (1828).

24) Este pensamento utópico levou a experiências práticas, por exemplo os “diggers” (William Everard, Gerrard Winstanley, etc. 1649-1650), os projectos de Robert Owen (reformas sociais em New Lanark /Escócia no início do século XIX, cooperativas de New Harmony / Indiana (1824) e Queenwood / Hampshire (1839). Cf. Robert Owen, A New View Of Society, Essays on the Formation of Human Character, 1813.

25) Bougainville, Voyage, pp. 138 / 150 / 158. Também Cook e Georg Forster idealizaram os nativos de Taiti: “Sie sind alle wohlgestaltet und von so schönem Wuchs, dass Phidias und Praxiteles manchen zum Modell männlicher Schönheit würden gewählt haben.” (Forster, 1963: 151) Mas depois de algum tempo na ilha Forster vê os lados negativos da sociedade indígena (desigualdade, preguiça, gula). (Forster, 1963: 248)

26) Delille, Les Jardins (1782), Diderot, Supplément au vouyage de Bougainville (1796), De Sade, Aline et Valcour (1796), ver também:, Poncelin de La Roche-Tilhac, Histoire des Révolutions de Taïti (1782), Bricaire de La Dixmérie, Le sauvage de Taïti aux Français (1770), Mme Monbart, Lettres Taïtiennes (1784), Abbé Baston, Narrations d’Omaï (1790).

27) Alguns aspectos paradisíacos de Taiti começavam a mudar pouco tempo após o primeiro contacto com a civilização. Em Abril de 1789 Bligh constatou: “We left Otaheite with only two patients in the venereal list, which shows that the disease has not gained ground.” (Bligh: 152)

28) “Gauguin est le peintre des natures primitives : il en aime et possède la simplicité, l’hiératisme suggestif, la naïveté un peu gauche et anguleuse. Ses personnages participent de la spontanéité inapprêtée des flores vierges. Il était donc logique qu’il exaltât pour notre fête visuelle les richesses de ces végétations tropicales où luxurie, sous des astres heureux une vie édénique et libre …” (A. Delaroche, “D’un point de vue esthétique à propos du peintre Paul Gauguin”, in: Gauguin: 35-36).

29) Mesmo no realismo, reclamado por Stevenson na sua narrativa Falesá, não falta a alusão a um possível paraíso terrestre: “Falesá might have been Fiddler’s Green, if there is such a place, and more’s the pity if there isn’t! It was good to foot the grass, to look aloft at the green mountains, to see the men with their green wreaths and the women in their bright dresses, red and blue.” (Stevenson, 1994: II, 311)

30) “Il est toujours à braconner sur les terrains d’autrui; aujourd’hui, il pille les sauvages de l’Océanie!” (Carta de Camille a Lucien Pissarro, 23 de Novembro 1893 ; cit. de Petra-Angelika Rohde, Paul Gauguin auf Tahiti: Ethnographische Wirklichkeit und künstlerische Utopie, p. 92)

31) Clive Wilmer, “At the Grave of William Morris Kelmscott Churchyard”, in: Of Earthly Paradise, Manchester: Carcanet Press Ltd. 1992, p. 44: “1 / where you lie / northman / your gray gable / rugg’d with lichen / roof raised above / no walls, / soul’s shelter / from the sky’s bluster, / and there underneath it / rests / that restless body / rootless among roots / 2 / Through the mouth and nostrils / sprouts greenery / or rime glitters / in the great beard / Desire / like ivory on a gravestone / binds him to this one place / like grass threading / the bluebells and the cowslips / braids him into it – / this holy place, / made holier by / his love of it / by his love”

32) “Rarely, before the nineteenth century, was death felt as the poisoner of all value in life. Darwin’s evidence of evolution published in the mid-century had made men view themselves in a diminished perspective.” (Thompson: 128)

33) Thomson: 132. Cf. também: “… in its sum it is a confession of defeat: considered within the traditions of the romantic movement, it is a rejection of Shelley’s claims for the poet, a refusal to sustain the struggle of Keats for full poetic consciousness and responsibility.” (Thompson: 121)

34) The singer’s “Apology” balances regret for art’s limitations with quiet confidence in its large subject: the variety and heroism of human actions.” (Saunders: 32-33)

35) Büchner, 1891: 6-8 e citando Virchow: “Während die Sagengeschichte uns den Rückschritt des Menschengeschlechtes von den seligen Tagen seiner Kindheit bis zu den rauen Tagen seiner Mannheit vorspiegelt, lehrt uns die nicht zu fälschende Naturgeschichte den, wenn auch nicht stetigen, so doch ansteigenden Fortschritt zu immer höherer Vollkommenheit.” (Büchner, 1891: 9)

36) “Werd ich zum Augenblicke sagen: / Verweile doch! du bist so schön! / Dann magst du mich in Fesseln schlagen, Dann will ich gern zugrunde gehn!” (Goethe: 50)

37) “Murnau suddenly realized the time, patience, love, hard work, and research that would be needed to capture, bit by bit, the shattered image and the destroyed and fugitive splendor of this former paradise.” (Eisner: 210)

38) Carta escrita por Murnau para a seguinte publicação: “Aus Briefen F.W. Murnau [Der Mensch und der Künstler] por Ernst Hofmann, no jornal 8 Uhr Abendblatt, Berlin, 27 Abril de 1931 (Eisner: 213).

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